O objetivo desse blog sempre foi registrar a infância das crianças, gerando uma "memória externa" dessa fase tão doce e maravilhosa.
No entanto, hoje, esse espaço vai dar lugar a uma triste reclamação e a uma grande indignação a respeito do sistema público de saúde brasileiro e da decadência de um grande hospital para tratamento do câncer.
Há cerca de 8 meses, meu tio, de 55 anos, foi diagnosticado com câncer. Sem condições de arcar com os preços abusivos dos planos de saúde, buscou atendimento no INCA, hospital público de referência no tratamento do câncer e onde, há 11 anos atrás, minha avó foi muitíssimo bem tratada.
Nossa primeira batalha foi conseguir uma vaga para o tratamento. Senhas para atendimento, esperas intermináveis e, por fim, a vaga tão desejada. Como comemoramos!
Só não imaginávamos o que viria depois. Todo mundo sabe o quanto um rápido tratamento é fundamental para a possível cura do câncer. Todo mundo, menos os funcionários do hospital do câncer. Um atendimento lento, com consultas e exames marcados para meses depois do ingresso no hospital, pessoas muito doentes sentadas no chão e nas escadas à espera de atendimento e informações, espaços imensos entre cada retorno agendado, uma demora tão grande na decisão do tratamento a ser realizado, que meu tio, que chegou apenas com um câncer no reto, já precisou fazer sessões de hemodiálise e está sob suspeita de ter perdido um rim e um ureter.
E ainda pior do que a demora, na minha opinião, é a falta de respeito e o desinteresse pelo paciente, a desumanidade de boa parte dos médicos. Toda vez que meu tio foi atendido por algum dos grandes especialistas do hospital, tivemos um dia difícil a superar: se a espera pela consulta dura horas, os médicos dedicam menos de 10 minutos a cada paciente, dão pouco crédito a suas dúvidas e anseios e sequer tentam demonstrar alguma delicadeza e solidariedade com o sofrimento de quem está tão fragilizado na sua frente, precisando tanto de ajuda. O juramento de "manter o mais alto respeito pela vida humana" e de ter a saúde de seus pacientes como sua maior preocupação parece, tristemente, ter sido deixado para trás.
E não venham falar que a culpa é apenas da precariedade do sistema de saúde. Humanidade, solidariedade e respeito para com a dor alheia independem de qualquer recurso...
Na semana passada, comemoramos a notícia de que o tumor de meu tio havia reduzido de tamanho com as sessões de radioterapia, que não havia sinal de metástase e que meu tio poderia, enfim, ser operado - pelo menos foi isso o que o oncologista do hospital nos disse. A consulta com o cirurgião foi marcada e esperamos ansiosos por ela, cheios de esperança.
E finalmente chegou o dia. E no lugar do cirurgião prometido, quem apareceu foi um médico residente, um homem rude e grosseiro, que disse sem papas na língua (e sem olhar nenhum dos exames apresentados...) que a operação duraria um dia inteiro, que meu tio teria que passar o resto da vida usando aquelas bolsas para coleta de fezes e urina e que, dessa forma, ele acha que nem vale a pena operar. Foi exatamente isso o que o meu tio escutou quando esperava estar perto da sua chance de se livrar da doença que o aflige há tanto tempo... No final, foi agendada uma junta médica para decidir o que deve ser feito.
A minha pergunta é: se já nos disseram que o tumor não pode ser eliminado apenas com sessões de radio e quimioterapia, e o residente (que ainda nem concluiu sua formação) acha que "não vale a pena" operá-lo, o que será que vale a pena para este médico? Esperar o tumor crescer e se alastrar, até que a morte resolva o problema? Será que é isso o que vale a pena para o meu tio, que tem apenas 55 anos, mulher e 2 filhos para sustentar? Será que é isso que os pacientes do INCA terminam por escutar, enquanto esperam encontrar sua cura?
Como pode ser tão fácil dizer a uma pessoa que ela não tem chance? Como serão os próximos dias do meu tio depois de ter ouvido isso? Será que esse médico sabe o que é viver sem saúde?
Enfim, por todos aqueles que dependem do sistema público de saúde, gostaria de pedir às autoridades que voltem seu olhar para nossos hospitais e para a qualidade dos profissionais que o integram. Um grande médico não é feito apenas pelo diploma de uma boa instituição e uma boa habilidade, mas também pela sua capacidade de lidar com o paciente e de se solidarizar com a sua dor. Em nome da população, peço mais respeito com a vida de todos nós, que sustentamos esse país e seu vergonhoso sistema de saúde, e merecemos muito, mas muito mais.
Em tempo, sou filha de um médico das antigas, desses que se comove com a dor do outro e que ainda acredita que a vida está acima de qualquer coisa e que sempre vale a pena lutar para preservá-la.
Carol, tomei a liberdade (falei com sua mãe) e postei seu texto no meu Facebook. Com certeza um assunto de extrema importância, que deve ser lido, visto e conhecido pelo maior número de pessoas possível! Espero e tenho muita fé, que isso tudo termine com a vitória do Tide! Estou na corrente ... Bjks. Cris Mauro
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